23/05/17 – 3 fotógrafos que você deveria conhecer

26 de Maio de 2017

Fonte: Quem Inova – Catraca Livre – 23/05/17

“A faculdade de fotografia ainda é essencial”, determina o artista e professor de produção fotográfica Elinaldo Meira, da FAPCOM (Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação). A constatação é uma resposta ao aumento significativo de fotógrafos momentâneos que surgiram na última década com o advento dos celulares aparelhados com lentes e das redes sociais de compartilhamento de imagens, como o Instagram e o Pinterest.

Apesar disso, o fenômeno, para ele, não é negativo. “A fotografia se tornou um fenômeno de reprodução de massa no século 19. A revolução digital só faz parte desse processo, é uma tendência histórica”, completa Elinaldo.

Não é a mesma percepção do artista e fotógrafo Rogério Nagaoka, também professor universitário. Para ele, há um fenômeno curioso em que a produção de fotos cresceu vertiginosamente, ao passo que a reflexão se reduziu. “Todo mundo tem acesso à uma câmera, mas ninguém pensa. Estamos no momento em que se produz a maior quantidade de fotos da história humana e, ao mesmo tempo, que ninguém reflete sobre nada”, critica. “É nesse cenário que um curso universitário é, sim, essencial”.

No Brasil, apesar da fotografia fazer parte da cultura mais ampla e ter apreço popular, existem poucos cursos de fotografia, e a maioria deles está localizada no Sudeste. De acordo com o MinC (Ministério da Educação), existem hoje 65 graduações dedicadas ao estudo fotográfico no país, além de 23 especializações. Só em São Paulo, existem mais de 20 ofertas de cursos.

O ramo profissional, no entanto, é grande: alguns formados se dedicam ao trabalho jornalístico, outros preferem fotos de estúdio, em revistas ou produtoras, de festas, e há ainda os documentaristas e os que se dedicam a fotos mais abstratas, geralmente os artistas. A faculdade, nesse sentido, tem uma importância significativa.

“O espaço acadêmico é um lugar de concentração de conhecimento. Ele ajuda a entender melhor determinados fenômenos. É mais ou menos dizer que todo mundo pode escrever, mas ainda sim existem os cursos de Letras ou de Jornalismo”, diz Elinaldo.

Para Carlos Frucci, professor da mesma faculdade, ainda que a horizontalidade da produção fotográfica seja benéfica, tanto para quem clica com smartphone como quem utiliza uma câmera profissional, a importância da graduação em fotografia está no acesso às técnicas, ao contexto histórico em que a produção de fotos surgiu e às dinâmicas sociais e comunicativas que elas tentam alcançar.

“Chegamos em um momento em que uma fotografia é tirada e, uma hora depois, é esquecida. O curso de graduação tenta fazer um nivelamento ao associar a parte técnica –a de diafragma, velocidade, lente etc– à linguagem fotográfica. O aluno logo percebe que a composição da fotografia tem a ver com a descoberta do olhar”, explica.

O Quem Inova conta brevemente a história dos três fotógrafos que, paralelamente aos cliques, compartilham o conhecimento com alunos em cursos de graduação.


 Elinaldo Meira (O sertão)

Mestre em Teoria Literária pela Unesp (Universidade Estadual de São Paulo ), doutor em Artes pela Unicamp e pós-doutor pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o artista e fotógrafo Elinaldo Meira tem uma obra imensa, que inclui produção de ilustrações, livros e, claro, fotografias.

Seu projeto em execução neste momento, batizado de “Lugares de Passagem”, tem um caráter duplo. “É uma realização documental e uma imersão nas minhas origens, um lado mais pessoal de tudo”, conta. O trabalho consiste em viagens pelo interior do Nordeste brasileiro em busca de imagens que representem a vida no sertão, inspirado também pelas fotos do premiado fotógrafo cearense Tiago Santana. Para além dos projetos, ele é professor do curso de fotografia da Fapcom, em São Paulo.

Padre Cícero (Juazeiro do Norte, Ceará)

Créditos: Elinaldo Meira “É uma foto significativa, porque o Padre Cícero é um ícone nordestino no sentido sacro, histórico e sociológico. A ideia da foto de baixo para cima, apesar de ser consequência natural do tamanho dele, dá também a dimensão religiosa que ele possui no Nordeste”

A moto e o cavalo (Feira Nova, Sergipe)

Créditos: Elinaldo Meira “A substituição dos animais como meios de transporte no Nordeste é um fenômeno atual na região nordestina. Consequência disso é que muitos jumentos têm sido abandonados nas beiras de estradas. Essa foto não é o mesmo caso: possivelmente, era um cavalo de vaquejada, caro, que estava sendo levado para tratar”

Dona Emília e Analdino (Ribeirão Pires, São Paulo)

Créditos: Elinaldo Meira “Minha avó, Emília, detesta morar em São Paulo. Natural de Manoel Vitorino, no sertão baiano, ela sente saudade da terra dela. Meu pai, Analdino, que também nasceu lá, leva sempre o acordeão pra tocar pra ela com a ideia de deixá-la mais feliz. No dia dessa foto, era Dia de Reis, e como ela gostava da cantoria, ele resolveu ir na casa dela com o instrumento”


Carlos Frucci (A cidade)

Inserido em um meio onde a produção fotográfica mais cresceu com o advento das câmeras de celulares e das redes sociais, o fotógrafo e professor Carlos Frucci privilegia o uso de técnicas que, para ele, só podem ser alcançadas por meio da formação. Esse conhecimento, na sua opinião, permite fazer uma denúncia social mais trabalhada.

Frucci organiza semanalmente voltas por regiões da cidade com seus alunos, que, com câmeras na mão, tentam unir a instrumentalização necessária e o olhar para o que acontece nas ruas. “É um trabalho estético e social ao mesmo tempo”, defende.

A mãe e o filho (Viaduto Santa Ifigênia, São Paulo)

Créditos: Carlos Frucci “Essa é uma foto em que a câmera acompanha o movimento com tempo de exposição lento. A velocidade controla o movimento e o diafragma controla o foco. Os dois juntos equilibram a entrada de luz. Um aluno me disse que ela estava tremida, mas há uma diferença entre o tremor e o ‘sentido do tremor’, que está ligado à dinâmica da foto”

Dois tempos (Avenida Paulista, São Paulo)

Créditos: Carlos Frucci “Me interessei pela linguagem dessa foto, que faz uma relação entre os diferentes tempos: a metalinguagem existente nela é que, enquanto o homem está quase em um estado natural (não à toa a árvore do lado dele), parado, inteiro, os riscos dos ônibus e dos carros mostram um outro tempo, em que o ritmo civilizado, dinâmico, é alcançado ao mesmo tempo. É como dizer que o homem está dentro de um tempo paralelo”

Porta giratória (Banco do Estado de São Paulo, São Paulo)

Créditos: Carlos Frucci “A questão histórica e a brincadeira com a sombra e a luz foram utilizadas nessa fotografia. Acho importante fazer sempre jogos com a contraluz, que foram a tônica de alguns movimentos fotográficos brasileiros”


Rogério Nagaoka (O mar)

Inspirado nas poéticas existentes na luz, o fotógrafo e artista Rogério Nagaoka se admite um conservador em produção de imagens fotográficas. Há alguns anos, ele passou a se dedicar a técnicas de revelação utilizadas no século 19, usando ferro e até prata no processo. “As fotografias têm diálogos com os valores analógicos e com questões que se perderam”.

Formado em Artes Plásticas na FAAP e Mestre em Poéticas Visuais pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, ele é professor do curso de Fotografia da FAPCOM desde o ano passado, mas já lecionou no Senac e em outros cursos. Entre suas principais referências, estão os fotógrafos Abelardo Morell, de Cuba, e o brasileiro Miguel Chikaoka.

Gôndola (Buenos Aires, Argentina)

Créditos: Rogério Nagaoka “A técnica utilizada para revelação dessa foto é o Van Dyke. Estava passeando com minha família em Puerto Madero, em Buenos Aires, e vi a embarcação passando. Eu a tirei com câmera comum, e foi o processo de reprodução que deu esse aspecto”

Pomba (Buenos Aires, Argentina)

Créditos: Rogério Nagaoka “A foto foi retirada no mesmo lugar: Puerto Madero, em Buenos Aires. Foi uma sorte o aparecimento da pomba no momento do clique. A reprodução foi feita utilizando a técnica Van Dyke também”

Barco (São Vicente, São Paulo)

Créditos: Rogério Nagaoka “Essa foto foi tirada em 2002, durante um projeto que estava participando em São Vicente, no litoral sul de São Paulo. Em tese, eu estava fotografando a ponte, mas o barco passou com pescadores jogando tarrafas na água para pegar peixes, e eu cliquei. A reprodução foi feita utilizando uma técnica do século 19: albumina. Apesar disso, ela já foi exposta em vários lugares em seu formato convencional”

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