O cinema Trash e a reciclagem da indústria cultural

6 de março de 2017

Esta monografia desenvolve uma análise sobre o cinema trash e outros conceitos relacionados ao trash, necessários para sua compreensão, sob o ponto de vista mercadológico, levando em consideração a produção, distribuição, comercialização e consumo dos filmes trash e a influência da internet em cada uma destas etapas. O objetivo da análise é definir as características do cinema trash e seu posicionamento no panorama atual, tendo como estudo de caso alguns subgêneros comuns do cinema trash e também filmes produzidos pelo estúdio e distribuidora The Asylum, em especial a franquia Sharknado, composta por 3 filmes, com o 4° filme em produção. A monografia adere à linha de pesquisa I – Comunicação, Cultura, Sociedade e Educação.

Este trabalho parte das situações-problema descritas a seguir: o que define um filme como trash? Como funciona o mercado destes produtos associados ao “mau gosto”? Qual o papel do trash no mercado atual?

Com base nos estudos já realizados, podemos resumir a definição de trash como qualquer obra audiovisual de pouca ou nenhuma qualidade técnica ou com temas considerados de mau gosto, ou ambos, sob os filtros da produção Mainstream. Partindo deste ponto, o trash também pode ser definido como gênero, estética e estilo cinematográficos.

Devido ao seu caráter independente, o cinema trash é, por via de regra, ousado. Tal ousadia gera produtos únicos, como tornados infestados de tubarões e colônias nazistas na lua. Estas produções, apesar de absurdas, são as únicas a atenderem uma fatia do mercado que demanda por excentricidades.

Esta independência dos grandes estúdios também é responsável, em parte, pela falta de recursos dos filmes e pode prejudicar a qualidade técnica da produção. Porém, segundo Gomes de Mattos (2003), alguns diretores de filmes de baixo orçamento ficaram conhecidos por burlar as adversidades com criatividade, personalizando suas produções e influenciando teóricos franceses no desenvolvimento da “teoria do autor”.

Essas produções, de modo geral, se destacam por sua excentricidade, humor negro e conteúdo apelativo, capaz de instigar um público específico, de nicho, enquanto causa aversão ao público geral.

Atualmente, as produções trash funcionam como porta de entrada para cineastas iniciantes e pequenas empresas, que conseguem produzir seu conteúdo com equipamentos digitais baratos e computadores pessoais e comercializá-lo online por meio de distintas plataformas, com acesso imediato a milhões de possíveis consumidores.

Este trabalho tem como metodologia de desenvolvimento a coleta de informações sobre os seguintes temas relevantes à pesquisa: cinema trash; história do cinema; filmes B; gênero, estilo e estética cinematográficos; novas mídias; indústria cultural; mercado cinematográfico; cauda longa; Netflix; subgêneros de filmes como filmes de zumbi, de tubarões e filmes found footage.

O trabalho se constitui das seguintes etapas: a) Levantamento bibliográfico, webgráfico, filmes, artigos e teses sobre a cultura do trash e a leitura e reflexões sobre o conteúdo; b) Escolha das fundamentações teóricas que deem embasamento para a pesquisa prática; c) Cruzamento das informações obtidas e aplicação dos conhecimentos teóricos na análise dos filmes escolhidos.

As fontes relevantes para a pesquisa variam entre: livros; trabalhos de pesquisa publicados: artigos, teses, notícias publicadas em sites jornalísticos e de entretenimento; análises de sites especializados no tema; dados coletados de serviços de análise como o Google Trends, Twitter Trending Topics e IBOPE; além dos sites dos próprios objetos estudados, como o Netflix.com.

Os trabalhos de Mayka Castellano, Gomes de Mattos, Chris Anderson, Walter Benjamin e Theodor Adorno compõem a estrutura base do trabalho. Em aspectos mais pontuais, também foram relevantes a esta pesquisa os trabalhos de Jacques Aumont, Michel Marie, Ronald Bergman, Sarah Berry-Flint, Ruy Gardnier, Heitor Capuzzo, Erick Felinto, Henry Jenkins, Bernadete Lyra, dentre outros nomes citados na bibliografia desta pesquisa.

Muitos dos termos pesquisados dificilmente são encontrados em publicações impressas. Para contornar este impasse foi necessário recorrer a sites relacionados ao tema, assim como a blogs especializados como o Blood Disgusting ou o Boca do Inferno. Outra fonte importante foi o IMDB.com (Internet Movie Data Base), banco de dados online com informações do universo cinematográfico.

A escolha do tema deste trabalho se deu devido à afinidade do autor com o cinema trash e, a partir dela, a constatação do crescimento, tanto no número de filmes trash disponíveis em sites de entretenimento, quanto no alcance de tais filmes que, mesmo sem a estrutura dos grandes estúdios, alcança seu público por meio das diversas redes sociais existentes online.

O objetivo deste trabalho é proporcionar uma melhor compreensão sobre o cinema trash e sua relevância no panorama atual, tanto como porta de entrada para cineastas iniciantes como nicho de mercado para produtoras independentes. O cinema trash desperta interesse na medida em que se caracteriza por produções de baixo orçamento e sua aparente executabilidade, mais próxima à realidade das produções nacionais do que as grandes produções holywoodianas. O orçamento de uma produção trash americana pode ser comparado ao da maioria das produções nacionais.

O trabalho se divide em 3 capítulos. O primeiro capítulo é dedicado à compreensão do cinema trash, sua origem, suas características e sua definição. O segundo capítulo trata da indústria cultural como foi definida por Benjamin e Adorno e seu posicionamento no cenário atual, onde a internet se instaura como fator determinante no mercado de entretenimento. O terceiro capítulo desenvolve o estudo de caso de alguns subgêneros comuns ao trash e também a franquia de filmes Sharknado.

Este trabalho se torna relevante para a área de RTVI por abordar um tema ainda pouco explorado no meio acadêmico e por analisar um mercado emergente que, apesar da característica do público de nicho, se expande constantemente, altamente integrado à cultura digital que promove a acessibilidade aos recursos necessários para os produtores e a facilidade de distribuição até o consumidor. Tal acessibilidade, inclusive, estimula a conversão do público a produtor.

Embora o trash tenha uma base de fãs sólida, pouco se fala sobre ele em círculos acadêmicos e quase não se encontra literatura a respeito. Este trabalho pretende contribuir com informações significativas para um estudo mais aprofundado e detalhado do tema, assim como destacar suas características, consolidar suas definições e seu espaço no meio acadêmico.

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