Peregrino Existencial

22 de abril de 2014

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Tenho a impressão de que estou sempre viajando, querendo compreender o sentido da minha vida, um exercício de fé para com o futuro. Eu sou um peregrino em Filosofia, um romeiro, quem anda ou viaja empreendendo longas jornadas existenciais, que causa estranheza por onde passa, sou um estranho, um estrangeiro, que tem qualidades raramente vistas, a singularidade.

A minha busca é dar sentido a uma das falas de Sócrates:

“Conhece-te a ti mesmo.”

“Ou seja, o que Sócrates pregava era que nós devemos nos ocupar menos com as coisas (riqueza, fama, poder) e passarmos a nos ocupar com nós mesmos. Poderia objetar-se: com que propósito deveria ocupar-me comigo mesmo? Porque é o caminho que me permite ter acesso à verdade. Mas que tipo de verdade? Obviamente não é uma verdade qualquer tal como a fórmula química da água, mas a verdade que é capaz de transformá-lo no seu próprio ser de sujeito. É esse ato de conhecimento, capaz de promover nossa autotranscedência, de que fala Sócrates. Conhecer a mim mesmo para saber como modificar minha relação para comigo, com os outros e com o mundo.”

Em terras de meu domínio sou um peregrino, alguém em busca de si mesmo, que nunca para de se deslumbrar com o por vir, é a transição do passado para o futuro, que é viver o presente.

Não me percebo como turista existencial, alguém em excursão de lazer a lugares interessantes ou aprazíveis, envolvido por um conjunto de serviços que promove esse tipo de excursão.

Pelas experiências fragmentadas que tenho na vida, busco juntar os pedaços e ter uma visão holística, e entender que em cada momento o tempo me dá uma resposta existencial.

Se eu fizer uma comparação da pessoa que eu era no início do curso de Filosofia para com a pessoa que sou durante o curso de Filosofia, tenho a consciência de que mudei em alguma coisa, já não sou a mesma pessoa. Viajei como peregrino por lugares existenciais que até então existiam, mas ainda não tinha consciência, ao conhecer tal realidade até então oculta, tive a opção da mudança, passei a ser outra pessoa, já não sou a mesma pessoa, alguma coisa me atingiu, e entender este processo, saber o que se passou com a minha própria pessoa, é um exercício que me remete a um trabalho existencial. É o ato de conhecer a mim mesmo, de forma mais ampla, mais profunda, mais singular.

Viver a vida como peregrino ou turista é uma questão de escolha existencial, eu escolho viver como peregrino, mas reconheço que há muito a perceber, a entender, a aceitar, a influenciar, que transforma a cada momento o sentido existencial de uma vida.

Passar pela vida como turista é uma tentação, é a possibilidade da existência superficial, sem comprometimento, é apenas o ato de viver e aceitar tudo como está sem jamais fazer um questionamento. É ter uma alma no sentido platônico e jamais fazer uso dela. É ser um animal dotado de razão, mas continuar a viver como animal. E cada um de nós tem a possibilidade de escolha, que tipo de pessoa quer ser? Uma pessoa animal ou uma pessoa racional, que faz uso de sua própria existência singular para ser mais humano. Ser humano é a busca de um peregrino, ser animal é atender os desejos de um turista, que apenas consome o que satisfaz. Eu escolho ser humano. Mesmo que me custe ser um turista, mesmo que os recursos não sejam tão abundantes quanto ao de um turista, mesmo que os destinos sejam menos atraentes, mas que me remeta à pessoa que existe dentro de mim, faça de mim um descobridor, um revelador, capaz de dar sentido a minha singular vida existencial. Que assim seja…

Texto produzido com a colaboração de Keller Reis Figueiredo, aluno de Filosofia da FAPCOM

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