Procrastinação, mais que preguiça, um ato político

14 de outubro de 2015

Lucas Fernandes


Todos temos tarefas diárias, das quais a maior parte é exercida em ambientes empresariais ou que têm por finalidade o alto rendimento. Hoje é quase impossível pensar nossas vidas sem a indústria ou cadeias de produção, sem as hierarquias... Mas, e se fosse possível, por alguns momentos, fugir dessa lógica?

A procrastinação é o ato de adiar tarefas, sejam elas complexas ou simples. Este ato é comum, porém considerado negativo, podendo ser prejudicial caso impeça o indivíduo de ter uma vida saudável e ser socialmente incluso. Obviamente, tais casos são extremos e devem receber acompanhamento clínico.

Todavia, para todo o restante das pessoas, essa é apenas uma prática relacionada a não disposição para determinadas atividades – o que não seria nada errado, se não fosse nossa domesticação aos padrões de trabalho.

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Incrivelmente, todos os dias, reclamamos que temos muito o que fazer, mas não nos vemos sem essas tarefas. O eterno paradoxo marxista de alienação está presente em nossas vidas. Não nos reconhecemos em nosso trabalho, tampouco nos reconhecemos sem ele, compulsão incentivada pelo avanço tecnológico.

Diversas vezes em momentos de lazer nos pegamos pensando em tarefas do trabalho, ou seja, por uma lógica de indução, em nosso trabalho, nada mais normal que procrastinar, afinal nossa mente possui costumes que transitam por diversas esferas. Mas no mundo corporativo, onde todos vivem para seus trabalhos, não é difícil que as pessoas ao não realizarem determinadas tarefas, sintam-se incomodadas ou desmotivadas. Por algum motivo, a busca pelo sucesso, e pela carreira profissional, afasta-nos de nós mesmo, entorpecendo o senso de estima, e muitas vezes causando um vazio que só é suprido pelo trabalho.

Pensando filosoficamente, essa forma de lidar com a realidade é mais profunda ao passo que não devemos considerar a procrastinação algo negativo, mas sim, o que nos reaproxima do que realmente queremos, nos reaproxima do corpo e do puro prazer de aproveitar os instantes de ócio.

Finalmente, é impossível falar de procrastinação sem mensurar a grande revelia que isso representa para o sistema capitalista: se tempo é dinheiro, procrastinar é um ato que remete a perda, a improdutividade e, consequentemente, faz-nos lembrar que nossa vida está intrinsecamente ligada a conquista.

Deixar para amanhã não é pecado, e precisa ser encarado como algo natural, é uma posição a ser defendida, apenas saiba como dosar isso!

 


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