Sonha em trabalhar com Jornalismo Internacional?

10 de outubro de 2017

Confira entrevista realizada por alunas do curso de Jornalismo da FAPCOM sobre os desafios da cobertura internacional


As estudantes Fernanda Andrade e Valéria Soares, do sétimo semestre do curso de Jornalismo noturno, entrevistaram a jornalista Veridiana Morais sobre as experiências na cobertura de pautas internacionais. 

Veridiana foi editora de Internacional da Band News de 2006 a 2015, é mestre pelo Departamento de Filosofia, Letras e Ciências humanas da USP (FFLCH) com a pesquisa “Como a mídia brasileira abordou a invasão do Iraque pelos EUA em 2003” e formada em Comunicação Social pela Faculdade Integradas Alcântara Machado (FiamFaam). Atuou como assessora de imprensa na Assembleia Legislativa de São Paulo e hoje integra a Assessora de Imprensa da Secretaria Municipal de Trabalho e Empreendedorismo.

 

Como você ingressou no jornalismo internacional?

“Quando ingressei na faculdade fiquei sabendo de vagas de estágio na TV Bandeirantes. Eu nunca havia pensado em fazer TV, queria trabalhar com impresso. Mas, mesmo assim, fui fazer a entrevista. Eu não tinha experiência nenhuma em telejornal mas tinha um diferencial: falava bem inglês (na época, década de 90, era um diferencial). Quando me ofereceram o estágio na Editoria de Internacional do Jornal da Band eu me empolguei. Apaixonada pelo Internacional nunca abri mão da editoria enquanto trabalhei em TV. Foram mais de 16 anos.”

 

O jornalismo internacional pode noticiar sobre qualquer editoria?

“A editoria de Inter (Internacional) mostra o mundo para o Brasil, ou seja, aborda todos os assuntos. O jornalismo internacional nasceu por aqui com os jornais que cobriam a vida na Corte, Portugal. Essas publicações tratavam de todos os aspectos da vida da sociedade, desde decretos reais a “colunas sociais” sobre filhos de nobres que iam estudar na Europa. No telejornal era muito comum o bloco de Inter começar falando de conflito bélico, política, economia e terminar contando sobre condições climáticas ou mesmo sobre celebridades.”

 

O que você considera o maior desafio: os diferentes idiomas, a distância dos fatos para apurar a informação, ou o fuso-horário?

“O desafio muda de acordo com a situação. Muitas vezes tentei contatos telefônicos com embaixadas brasileiras no exterior e não estava mais no horário de atendimento, ou seja, o fuso atrapalhou muito. A distância é sempre um complicador porque tende a minimizar nuances sociais e políticas que são importantes para contextualizar os relatos.”

 

Como é feita a apuração?

“Depende muito das ferramentas e recursos disponíveis. Quando temos um correspondente torna-se mais fácil em questões sociais e políticas, por exemplo. Agora, em caso de guerras e conflitos, você precisará ampliar a apuração para as agências de notícias, canais de TV internacionais e jornais internacionais online. Isso porque nas guerras a movimentação do correspondente é limitada, difícil e – na maioria das vezes – o contato com a redação precário. Em campo ele não consegue ter uma visão geral de todo o conflito, por questões geográficas. Então, nessas coberturas a redação também dá apoio com informações ao correspondente.”

 

Qual cobertura te marcou mais?

“Sem dúvida a invasão do Iraque, em março de 2003, foi um marco. Primeiro porque acompanhei todo o jogo diplomático e via uma guerra ser “armada” sem necessidade real: o Iraque não tinha armas de destruição em massa, fato que era amparado pela ONU mas, apesar das centenas de vozes em contrário, os EUA declararam guerra e detonaram uma das maiores crises atuais. Eu julgava ser injusta a guerra. Essa cobertura exigiu de todos nós da equipe muitas horas extras de trabalho sob tensão, falando de um assunto pesado e vendo imagens trágicas. Emocionalmente foi pesado. Mas, a complexidade do assunto, os desdobramentos da queda de Saddam e o trabalho de comparar fontes de informação e como elas tratavam o tema me levaram a fazer um mestrado sobre isso.

Mas cito também outras passagens emocionantes, como o Acordo de Paz na Irlanda do Norte, a história da Malala, a eleição de Obama.

Outra importante: a independência do Timor Leste, marcada por muita violência. O grande articulador do processo de pacificação foi o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, por quem eu nutria grande admiração. Anos depois ele foi o mais alto representante da ONU enviado ao Iraque, pouco após a queda do regime. Ele morreu em uma grande explosão de caminhão-bomba, detonado embaixo da janela do escritório dele. Eu estava no ar naquele dia, acompanhando tudo e – com lágrimas nos olhos – anunciei a morte dele quando foi confirmada.”

 

Você tem alguma dica/sugestão para quem quer seguir nessa editoria?

“Estude línguas, sem dúvida! Antes o inglês era diferencial, hoje é básico, precisa ter. Espanhol também. O diferencial é ter uma quarta ou quinta língua. Tenha curiosidade por diferentes culturas e povos, sem preconceitos. E sempre, sempre, recorrer à História para entender o momento atual. Quanto maior o nosso repertório, melhor vamos entender os acontecimentos e explicar para quem vive aqui no Brasil o porquê daquela notícia, o motivo que consideramos ser importante ele ser informado sobre a luta curda, por exemplo. Se não for assim, a mensagem se perde e não cumprimos com a nossa missão.”

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Henry Carroll na FAPCOM

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